O desemprego chegou aos “tios”, o que é problemático. Se o pessoal do croquete não se consegue manter, que esperança há para os outros?
Mas há que dar a mão à palmatória… Até no desemprego “eles” são diferentes. Hoje ouvi a conversa entre dois e fiquei
maravilhada! Parecia que estava a
assistir a um programa do David Attenborough, sobre aquelas espécies
desconhecidas de animais, inofensivos e fofinhos, que nos fazem soltar um
“Oooooohhh!”.
Os meus amigos desempregados passam os dias preocupados com
as contas e a tentar arranjar maneira de fazer esticar o dinheiro até ao fim do
mês. Mas o “tio”? Essa espécie rara da fauna social? Nem pensar nisso! O espécime masculino da conversa ouvida por
entre o pó dos livros, esclareceu-me: o
“tio” passa os dias ligado ao “Food Channel” a tirar ideias para a próxima soirée.
Perde-se entre ingredientes, pratos confeccionados por outros que
não ele, entre tachos e panelas que nunca há-de lavar e assim passa, cheio de
dificuldades, os seus dias.
Os meus amigos que subsistem na esperança de encontrar
emprego, receiam o despedimento das pessoas queridas; família, amigos,… O “tio” fica em êxtase ao saber que uma amiga
vai ficar desempregada no fim do ano, pois isso significa ter companhia para a
monotonia do dia-a-dia (também significa, implicitamente, que não pretende
arranjar trabalho até lá).
O cidadão comum, para espairecer e esquecer o desânimo e o
desespero de mais um currículo sem resposta, pode, se ao chegar ao fim do mês
tiver tido a sorte de sobrarem umas migalhas, planear uma ida ao cinema
(esquecem-se as pipocas e levam-se umas gomas do Continente que são só 0,99€)
ou, se a poupança tiver sido boa, esbanja-se no último livro a sair da pena do
José Rodrigues dos Santos e assegura-se, assim, uns quantos dias de
distração. O “tio”? O “tio” inscreve-se num curso de escrita
criativa do El Corte Inglés, organiza uma excursão com todos os amigos que
ocupam os seus dias com o “Food Channel” e planeia uma terapia de compras no
final do workshop.
A sério… Como é
possível não se ficar fascinada com este espécime? Só nestes 5 minutos de conversa escutada
disfarçadamente já me deu uma ideia diferente e mais positiva do desemprego que
todos os jornais, canais televisivos ou relatos pessoais ouvidos nos últimos
tempos.
Estou seriamente a pensar em adoptar um… Deve haver uma Associação de Apoio ao
“Tio”… Algo que impeça a extinção desta
espécie tão delapidada… Já venho… Vou às Páginas Amarelas!

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