terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tios no Desemprego




O desemprego chegou aos “tios”, o que é problemático.  Se o pessoal do croquete não se consegue manter, que esperança há para os outros?

Mas há que dar a mão à palmatória…  Até no desemprego “eles” são diferentes.  Hoje ouvi a conversa entre dois e fiquei maravilhada!  Parecia que estava a assistir a um programa do David Attenborough, sobre aquelas espécies desconhecidas de animais, inofensivos e fofinhos, que nos fazem soltar um “Oooooohhh!”.

Os meus amigos desempregados passam os dias preocupados com as contas e a tentar arranjar maneira de fazer esticar o dinheiro até ao fim do mês.  Mas o “tio”?  Essa espécie rara da fauna social?  Nem pensar nisso!  O espécime masculino da conversa ouvida por entre o pó dos livros, esclareceu-me:  o “tio” passa os dias ligado ao “Food Channel” a tirar ideias para a próxima soirée.  Perde-se entre ingredientes, pratos confeccionados por outros que não ele, entre tachos e panelas que nunca há-de lavar e assim passa, cheio de dificuldades, os seus dias. 

Os meus amigos que subsistem na esperança de encontrar emprego, receiam o despedimento das pessoas queridas;  família, amigos,…  O “tio” fica em êxtase ao saber que uma amiga vai ficar desempregada no fim do ano, pois isso significa ter companhia para a monotonia do dia-a-dia (também significa, implicitamente, que não pretende arranjar trabalho até lá).

O cidadão comum, para espairecer e esquecer o desânimo e o desespero de mais um currículo sem resposta, pode, se ao chegar ao fim do mês tiver tido a sorte de sobrarem umas migalhas, planear uma ida ao cinema (esquecem-se as pipocas e levam-se umas gomas do Continente que são só 0,99€) ou, se a poupança tiver sido boa, esbanja-se no último livro a sair da pena do José Rodrigues dos Santos e assegura-se, assim, uns quantos dias de distração.  O “tio”?  O “tio” inscreve-se num curso de escrita criativa do El Corte Inglés, organiza uma excursão com todos os amigos que ocupam os seus dias com o “Food Channel” e planeia uma terapia de compras no final do workshop.

A sério…  Como é possível não se ficar fascinada com este espécime?  Só nestes 5 minutos de conversa escutada disfarçadamente já me deu uma ideia diferente e mais positiva do desemprego que todos os jornais, canais televisivos ou relatos pessoais ouvidos nos últimos tempos.

Estou seriamente a pensar em adoptar um…  Deve haver uma Associação de Apoio ao “Tio”…  Algo que impeça a extinção desta espécie tão delapidada…  Já venho…  Vou às Páginas Amarelas!

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